Mandar a foto de uma pinta para o ChatGPT e perguntar se é grave é uma das coisas mais naturais de fazer hoje, e uma das mais arriscadas. O chatbot responde com segurança, em bom português, mesmo quando não deveria.
O dermatologista Magnus Lynch, de Londres (Guy's Hospital e King's College), decidiu medir. Ele deu a duas das IAs mais capazes de outubro de 2026, o GPT-6 Astra e o Claude Fable 5.1, 200 lesões de pele confirmadas por biópsia e comparou com uma IA especialista de 2015, treinada só com fotos de pele. A especialista acertou 62%. Os dois chatbots acertaram 42%.
Este guia traz o que o vídeo cortou: o link do estudo com a tabela de acertos, uma lista de quando usar cada tipo de IA, os limites do teste e o que levar à consulta. A pessoa que decide sobre uma pinta é sempre o médico; nada aqui substitui consulta. Os dados vêm do estudo publicado em 25/10/2026.
Estudo completo com a tabela de acertos
O estudo está em https://lynchlab.net/llm-skin-cancer (título: "A 10-year-old CNN outperforms frontier LLMs for skin cancer diagnosis"). Os números principais:
| Modelo | Acertos na primeira escolha |
|---|---|
| IA especialista (Inception v3, de 2015) | 125 de 200 (62%) |
| Claude Fable 5.1 | 85 de 200 (42%) |
| GPT-6 Astra | 84 de 200 (42%) |
As 200 lesões vêm de um banco público de imagens (MILK10k), todas com diagnóstico confirmado por biópsia, e cada uma tem duas fotos: uma de perto e outra com a lente de aumento iluminada que os dermatologistas usam. Eram seis diagnósticos possíveis. A IA especialista foi ajustada com 68.011 imagens de pele de um arquivo público, e as 200 lesões do teste foram retiradas do treino antes.
Por que a especialista ganhou: o chatbot é generalista, aprendeu um pouco de tudo; a especialista viu dezenas de milhares de fotos de pele e só aprendeu aquilo. É a diferença entre o clínico que leu sobre tudo e o dermatologista que passou a vida olhando pele.
O detalhe mais curioso: cada chatbot errava sempre para o mesmo lado. O GPT-6 Astra chamou 75 lesões de carcinoma basocelular quando só 25 eram. O Claude Fable 5.1 chamou 53 de ceratose actínica.
Lista de quando usar IA geral e quando procurar especialista
Com base no que o estudo mostra e com bom senso, uma lista de partida:
IA geral costuma servir para:
- Entender um termo médico que apareceu no laudo, em linguagem simples.
- Preparar perguntas para fazer ao médico.
- Organizar a lista de sintomas, datas e remédios antes da consulta.
Não use IA geral para:
- Decidir se uma pinta, mancha ou ferida é grave.
- Concluir que "pode esperar" ou que não precisa de consulta.
- Interpretar sozinho um exame de imagem.
IA especialista: o estudo mostrou que modelos treinados só numa tarefa podem ir melhor que os generalistas nela. Mas a IA do estudo é um teste de pesquisa, não um aplicativo de diagnóstico para o público, e o autor não a apresenta como substituta de consulta. Se um dia existir uma ferramenta médica aprovada, quem a indica é o seu médico.
Procure um médico sempre que: a pinta mudou de cor, de tamanho ou de forma, sangra, coça, não cicatriza ou simplesmente te preocupa. Esse último motivo já basta.
Os limites do teste
O próprio autor lista as ressalvas, e elas importam:
- 200 lesões, sendo só 30 melanomas. É uma amostra pequena.
- Uma rodada por modelo. Cada chatbot rodou uma vez; outra rodada poderia dar números um pouco diferentes.
- A IA especialista é uma linha de base, não um produto pronto.
- O teste usou só fotos de pele. O resultado não diz que o ChatGPT é pior em tudo, só nessa tarefa.
- As lesões foram biopsiadas, inclusive as benignas, o que as torna mais difíceis que as pintas do dia a dia.
- Os dois chatbots receberam as imagens sem mais contexto, como um médico poderia usar. Numa conversa real, você daria história e sintomas.
O que levar para a consulta com o dermatologista
Em vez de levar a resposta da IA, leve informação que ajuda o médico:
- Fotos da pinta ao longo do tempo, com a data, sempre com a mesma luz e uma régua ou moeda ao lado para dar escala.
- Quando você notou a mudança e o que mudou (tamanho, cor, borda, relevo).
- Sintomas: coceira, dor, sangramento, ferida que não fecha.
- Histórico: casos de câncer de pele na família, exposição ao sol, queimaduras antigas.
- A lista de remédios que você usa.
- Suas perguntas, que a IA pode ajudar a escrever.
Quem examina a pinta, com lente e experiência, é o dermatologista.
Fontes
- Dr Magnus Lynch, "A 10-year-old CNN outperforms frontier LLMs for skin cancer diagnosis", Lynch Lab, 25/10/2026: https://lynchlab.net/llm-skin-cancer (acessado em 30/10/2026)